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Organização criminosa do Mato Grosso é acusada de aplicar golpe de R$ 250 mil em venda de imóvel para advogado do Ceará – Segurança

A compra de uma sala comercial, em um edifício no bairro Cocó, em Fortaleza, por R$ 250 mil, parecia um bom negócio para um advogado que atua no Ceará. Entretanto, ele não esperava ser enganado por um corretor e sofrer um golpe de uma organização criminosa oriunda do Estado do Mato Grosso, especializada em estelionato – principalmente na venda de imóveis e veículos.
A Polícia Civil do Ceará (PCCE) investigou o caso e chegou a uma “teia criminosa” com divisão de tarefas entre os integrantes. O Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou 24 pessoas pelos crimes de estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. A denúncia foi recebida e o grupo virou réu na Justiça Estadual, no último dia 10 de fevereiro.
Conforme documentos obtidos pelo Diário do Nordeste, o advogado (de identidade preservada) colocou um anúncio em uma plataforma online para comprar uma sala comercial em um edifício localizado na Rua Doutor Gilberto Studart, no bairro Cocó, no dia 30 de maio de 2023. Dois dias depois, surgiu um suposto proprietário de um imóvel, que desejava negociá-lo, e indicou um corretor para intermediar a venda.
Ao entrar em contato com o corretor, o advogado recebeu a documentação do imóvel, inclusive a matrícula atualizada, o que deu confiança para dar sequência à aquisição da sala comercial. A vítima pagou o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) no valor de R$ 5 mil e custas cartorárias que somaram R$ 4.167.
O advogado, então, foi ao banco para transferir o valor de R$ 250 mil, para finalizar a compra do imóvel. O valor foi dividido em transferências para duas contas, nos valores de R$ 150 mil e R$ 100 mil.
Cerca de 10 minutos depois, o advogado recebeu uma ligação do corretor, que revelou que eles tinham sofrido um golpe. O corretor reconheceu à Polícia que o suposto proprietário do imóvel pediu para ele mentir para o comprador sobre a legitimidade da propriedade, que ainda estava na posse dos antigos proprietários.
R$ 350 mil
seriam pagos pelo golpista aos antigos proprietários da sala comercial, que ainda tinham a posse do imóvel. O estelionatário mostrou comprovantes falsos do pagamento, poucas horas antes do advogado efetuar a transferência de R$ 250 mil. Já o corretor, que garantiu que acreditava na compra e na revenda do imóvel, receberia R$ 35 mil pelo trabalho. Corretor e antigos proprietários não foram denunciados pelo MPCE.
Na denúncia ofertada à Justiça, além de pedir a condenação dos acusados, as Promotorias de Justiça de Combate às Organizações Criminosas solicitaram o reparo por danos materiais de R$ 259 mil ao advogado cearense, em razão da transferência que ele fez de R$ 250 mil para os estelionatários e dos pagamentos de impostos e custas cartorárias, que ultrapassaram R$ 9 mil.
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Como funcionava o esquema criminoso
A investigação da Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), da Polícia Civil do Ceará, sobre o golpe cometido contra o advogado chegou a uma organização criminosa oriunda do Mato Grosso, que fez outras vítimas e que movimentava altos valores em contas bancárias.
A teia criminosa tinha “pessoas responsáveis pela engenharia social em face das vítimas, outras pelo recebimento dos valores, e outras pela pulverização dos valores recebidos”, segundo a denúncia do Ministério Público do Ceará.
Os investigadores analisaram “dados sociais e financeiros de 11 investigados relacionados a movimentações financeiras incompatíveis com suas rendas formais. A análise identificou valores significativos movimentados em contas bancárias, além de vínculos com programas sociais, como o Bolsa Família”.
Dessa forma, a investigação revelou que a atuação do grupo criminoso vai além de um simples caso de estelionato. A análise dos dados aponta para a existência de uma organização criminosa complexa, com divisão de tarefas e especialização de seus membros. Essa estrutura organizada foi essencial para a aplicação de golpes de grande escala e a ocultação dos valores obtidos.”
Conforme a denúncia do MPCE, R$ 150 mil transferidos pelo advogado cearense tiveram como destinatária a conta bancária de Thalia Nascimento da Silva, que foi acusada de integrar a organização criminosa. Ela distribuía os valores oriundos dos golpes para outros comparsas. Um deles era Anderson Nazareno Eugênio de Freitas, apontado como um dos líderes do esquema criminoso.
Já a transferência de R$ 100 mil feita pelo advogado teve como destinatário Wagner Amaral Ribeiro, também acusado na denúncia. Wagner enviou um total de R$ 39,4 mil para outras duas contas bancárias no seu nome, além de R$ 8,3 mil para Leandro Andrade de Souza, mais um denunciado pelo MPCE.
Legenda:
Aparelhos celulares e cerca de R$ 1 mil em espécie foram apreendidos pelos policiais civis, com os investigados
Confira quem são os 24 réus no processo:
- Anderson Nazareno Eugênio de Freitas
- Caio Leonardo Mazetto de Sousa
- Danilo Almeida Chaves
- Douglas Fernando Souza Gomes
- Erika Carolina Santos Teixeira
- Eunice Miranda da Silva
- Franclande Costa de Oliveira
- Juliana Jakeline de Siqueira Guarim
- Leandro Andrade de Sousa
- Leonardo Rondon Rinaldi
- Maikon Jhony Silva Costa
- Marcos Henrique de Sousa Santana
- Mariane Taine Correia dos Santos
- Matheus Henrique Correia Cruz
- Pedryanne de Paulo Oliveira
- Rafael Roberto de Lima Rodrigues
- Thalia Nascimento da Silva
- Ueliton Andrade Bonfim
- Vanderleia Nascimento da Costa
- Vanessa Francisca de Almeida
- Wagner do Amaral Ribeiro
- Walter Almeida de Lima
- Welter da Silva Souza
- Wendell Lopes Padilha
A advogada Thayane Pinheiro, que representa a defesa de alguns réus no processo, enviou nota em que afirma que “o processo tramita sob segredo de justiça, motivo pelo qual não posso fornecer detalhes específicos. Contudo, afirmo que meus clientes estão sendo injustamente acusados e confio plenamente que sua inocência será demonstrada ao longo da instrução processual. Estamos à disposição da Justiça para esclarecer todos os fatos”.
As defesas dos outros réus não responderam à reportagem ou não foram localizadas para comentar sobre o processo criminal. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
‘Golpe do falso intermediário’
O grupo investigado pelo golpe de R$ 250 mil contra o advogado foi alvo da Operação Deceptor, deflagrada pela Polícia Civil do Ceará, com apoio da Polícia Civil do Mato Grosso, no dia 22 de novembro do ano passado.
15
mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra os acusados, em quatro cidades do Mato Grosso (Cuiabá, Várzea Grande, Mirassol d’ Oeste e Cáceres). Dois homens, de 31 e 20 anos, que não tiveram a identificação divulgada, foram presos por força de mandados de prisão preventiva.
Ao divulgar a Operação, a PCCE informou que a ação policial tinha o objetivo de “desarticular um grupo criminoso responsável por aplicar o “golpe do falso intermediário”, que tinha como vítimas, vendedores e compradores de imóveis e veículos. Os suspeitos se utilizavam de anúncios de terceiros para negociar os bens nas plataformas de vendas online”.
A Justiça do Ceará também bloqueou valores de até R$6 milhões, em contas bancárias dos réus, e determinou a apreensão de 15 veículos utilizados pelo grupo criminoso. Com os acusados, foram apreendidos computadores, aparelhos celulares e cerca de R$ 1 mil em espécie.
